
Surpreso, dei-me conta de que grilhões foram partidos.
Aquilo que me atormentava foi embora sem repressão, sem violência...
Estou perplexo e em paz.
Aquelas sombras minhas, desmancharam-se suaves e silenciosas, a maneira das trevas que recuam sem resistência, quando ao primeiro contato com as luzes da aurora.
Desapareceram como por encanto, perdendo a força incrível que tiveram sobre mim...
Vi, aliviado, dispersarem-se densas nuvens, ante o sopro contínuo duma brisa penetrante...
Antes escravo dessa força obscura, agora me encontro em convalescença, recobrando a autoconquista... Enfermo fui. Abatido pelo vírus da imprudência que expôs chagas profundas, carentes do bálsamo que só a disciplina poderia me conceder...
Todavia, pensei vacilante: a que preço realizaria essa disciplina em mim? Se tudo fosse feito de modo equivocado, aquele mal torna-se-ia mais forte, pela mesma razão que tudo proibido é mais atraente, cativante...
Ocorreu-me, então, a lembrança de um pensamento: “se a corda estiver muito esticada arrebenta, se estiver frouxa não toca”. Lançada estava a semente primordial de toda a minha recuperação...
Nunca esquecerei aqueles que me suportaram pelos seus braços e pelas suas amorosas palavras nas horas de franca aflição. Sábios amigos, pacientes e piedosos cujo grau de compreensão da natureza humana ainda estou muito aquém de alcançar... Não houve julgamento: ninguém atirou a primeira pedra... Pelo contrário, todos me incitaram a um constante autoperdão...
Gratidão eterna, a eles, evoco aqui.
Fui ao inferno e, se não fosse a serenidade com que andei por lá, inspirada por esses luminosos amigos, por lá teria ficado. Se houvesse resvalado no remorso incessante, no queixume improdutivo, na inquietação ingrata, indubitavelmente, teria permanecido para muito além dos dias em que passei naquele "paraíso das sombras"...
Apenas a resignação não submissa daquela infeliz condição abriria uma porta para entrada de quem me estenderia as mãos - e que não me cobraria um ceitil sequer. Assim o fiz: aceitei-me, não sendo mais conivente, porém, com os desacertos que me assolavam.
Quem me reconduziu, da escuridão íntima, para a claridade exterior; de um caos irracional, para a ordem da razão e da consciência, no final da jornada, liberou-me, deixando-me mais uma vez entregue ao meu próprio e inalienável livre arbítrio...
Sigo em frente, na certeza de que só dependo de mim mesmo, para não mais voltar a errar.
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Na imagem: L'Empire des Lumieres, 1954 - Rene Magritte.