rss
email
twitter
facebook

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Saindo do Paraíso das Sombras


Surpreso, dei-me conta de que grilhões foram partidos.

Aquilo que me atormentava foi embora sem repressão, sem violência...

Estou perplexo e em paz.

Aquelas sombras minhas, desmancharam-se suaves e silenciosas, a maneira das trevas que recuam sem resistência, quando ao primeiro contato com as luzes da aurora.

Desapareceram como por encanto, perdendo a força incrível que tiveram sobre mim...

Vi, aliviado, dispersarem-se densas nuvens, ante o sopro contínuo duma brisa penetrante...

Antes escravo dessa força obscura, agora me encontro em convalescença, recobrando a autoconquista... Enfermo fui. Abatido pelo vírus da imprudência que expôs chagas profundas, carentes do bálsamo que só a disciplina poderia me conceder...

Todavia, pensei vacilante: a que preço realizaria essa disciplina em mim? Se tudo fosse feito de modo equivocado, aquele mal torna-se-ia mais forte, pela mesma razão que tudo proibido é mais atraente, cativante...

Ocorreu-me, então, a lembrança de um pensamento: “se a corda estiver muito esticada arrebenta, se estiver frouxa não toca”. Lançada estava a semente primordial de toda a minha recuperação...

Nunca esquecerei aqueles que me suportaram pelos seus braços e pelas suas amorosas palavras nas horas de franca aflição. Sábios amigos, pacientes e piedosos cujo grau de compreensão da natureza humana ainda estou muito aquém de alcançar... Não houve julgamento: ninguém atirou a primeira pedra... Pelo contrário, todos me incitaram a um constante autoperdão...

Gratidão eterna, a eles, evoco aqui.

Fui ao inferno e, se não fosse a serenidade com que andei por lá, inspirada por esses luminosos amigos, por lá teria ficado. Se houvesse resvalado no remorso incessante, no queixume improdutivo, na inquietação ingrata, indubitavelmente, teria permanecido para muito além dos dias em que passei naquele "paraíso das sombras"...

Apenas a resignação não submissa daquela infeliz condição abriria uma porta para entrada de quem me estenderia as mãos - e que não me cobraria um ceitil sequer. Assim o fiz: aceitei-me, não sendo mais conivente, porém, com os desacertos que me assolavam.

Quem me reconduziu, da escuridão íntima, para a claridade exterior; de um caos irracional, para a ordem da razão e da consciência, no final da jornada, liberou-me, deixando-me mais uma vez entregue ao meu próprio e inalienável livre arbítrio...

Sigo em frente, na certeza de que só dependo de mim mesmo, para não mais voltar a errar.

_________________________________________________

Na imagem: L'Empire des Lumieres, 1954 - Rene Magritte.

3 vozes:

Zen 沈 disse...

Você escreve maravilhosamente bem, suas frases nesse texto são extremamente profundas, me identifiquei muito com ele.

Como ocorre o teu processo de criação?

Zen 沈 disse...

Entendo completamente o que disse.
Em outras épocas, quando escrevia mais, e por outras razões,acontecia exatamente assim. Escrevi muitos poemas que tenho certeza não serem meus.
Gosto de escrever sobre sentimentos, paixão, sexo, e coisas que acredito. Muitas e Muitas vezes me surpreendi usando palavras que nem lembrava que existia, e tratando de temas alheios a mim.
Também perco muita coisa, palavras e textos que vão se formando como um diálogo em mimha mente, enquanto estou indo em direção a qualquer lugar, sem papel ou caneta, rsrs. Depois não consigo transcrevê-los.

Acho que todo processo artístico ocorre dessa maneira, e você, mais uma vez traduziu com perfeição.

Tens uma fã.

Este texto traduz um acontecimento real ( teu )?

Qual teu curso?

Zen 沈 disse...

Gosto de muitas coisas, gosto de química, principalmente orgânica, adoro psicologia, ja tive interesse por psiquiatria, gosto de filosofia, em suma, o ser humano é fascinante, em todas as suas dimensões e faces. Jamais conseguiremos compreendê-lo sem o estudo da história, quem sabe até da astrologia ( astrologia mesmo )... A física quântica...a Biologia... a genética é algo fascinante, as letras nos permitem este diálogo, através da tecnologia, com mentes distantes geograficamente, trocando informações e conhecimentos ( por conta da engenharia ) Legal, né?

O importante é aprender, com nós mesmos, nossos erros, acertos... com os outros também...

No veneno encontramos a cura.

Postar um comentário