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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ausência


Duas faces revoltas, como reflexos num espelho d’água, distorcidos por nossas próprias mãos.

Tão irreconhecíveis nos tornamos um para o outro que não mais nos encontramos quando juntos estivemos pela última vez.

Eu perguntava a ti onde estavas, pensando ser outro alguém... Tu perguntavas a mim onde eu estava, escutando outro te responder... Passamos a acordar, todos os dias, com estranhos ao nosso lado e somente agora percebo que esses estranhos éramos nós mesmos...

Assim, tão distantes, cada vez que fazíamos amor, era uma traição...

A mágoa endurecida deu forma à indiferença e transformou em migalhas nossa cumplicidade. Tudo o que chamávamos de lar se desfez como um castelo de cartas, soprado por um brusco fechar de porta.

Uma vergonha muda insculpiu em nossos rostos, antes acobertados pela ilusão, a solidão de dois seres na companhia da ausência.

Nada mais seria como antes.

Não houve adeus.


__________________________

Na imagem: The Lovers, 1928 - René Magritte.

7 vozes:

Cibele disse...

Que triste final para esse relacionamento.
"Tão irreconhecíveis nos tornamos um para o outro que não mais nos encontramos, quando lado a lado estivemos pela última vez."
Na maioria das vezes é assim, né? E às vezes fico me perguntando porquê isso acontece... É preciso se encontrar, achar a própria essência e não procurar a própria essência no outro. Não existem metades, somos inteiros e, dessa forma, nos completamos, somos um.

Se as pessoas soubessem...

Beijo na alma.

Sheila disse...

Esses finais machucam tanto...

Conhece um poema do Jacques Prévert que se chama "Dejeuner du matin"? Ele vai detalhando um casal na mesa do café, cada um em seu mundo... até que um deles sai de casa. Ler seu post, me lembrou o poema, porque é a indiferença o que mais machuca quando ainda amamos - e o que mais choca quando se vê uma história de fora.

Bjks.

Tainá Holanda disse...

Seus textos são maravilhosos!

A indiferença, sem dúvida alguma, é o pior dos sentimentos. Talvez não o pior, mas o que mais dói.

Servo da Gleba disse...

Cibele,

Concordo em gênero, número e grau quando dizes: "Não existem metades, somos inteiros(...)".

Buscar-se no outro é algo quixotesco, realmente.

Por não nos conhecermos, não nos amamos e por não nos amarmos sofremos e fazemos outros sofrerem conosco.


***

Sheila,

Não conheço esse autor e essa poesia dele. Confesso que fiquei com vontade de lê-lo... ;)

Vou catá-lo daqui a pouco pelo "Pai Google"...


***

Tainá,

A indiferença é um grito mudo, dos mais altos e desumanos, que um coração pode ouvir (ou proferir).

Ser indiferente é sentenciar-se ao desterro de uma pátria chamada amor.

Perde dessa forma, o indiferente, a oportunidade de amar duas vezes: o seu próximo e a si mesmo. Perde a oportunidade de ser duas vezes grande...

_______________

Beijos no coração! Muita paz para todos nós!

Cibele disse...

Olá! Bom, eu não sei se você gosta de selinhos e tal, mas eu te indiquei para um selo lá no meu blog. De qualquer forma, depois passa lá pra ver, ok?

Beijo na alma.

Zen 沈 disse...

"Por não nos conhecermos, não nos amamos e por não nos amarmos sofremos e fazemos outros sofrerem conosco. "

"Perde dessa forma, o indiferente, a oportunidade de amar duas vezes: o seu próximo e a si mesmo. Perde a oportunidade de ser duas vezes grande... "


Sobre o texto: Sem mim? então, sem nós!

É assim na maioria das vezes, mudamos e nem sempre o outro nos acompanha em nossas mudanças. Somos diferentes de antes, e não percebemos que o nosso parceiro de hoje já não faz mais parte de nossa realidade, que se transformou junto com nossas idéias e tudo o mais que nos compunha, o amor até existiu, mas se perdeu em algum momento.Não pudemos perceber onde ele começou a se apagar, falta clareza, falta autoconhecimento, falta observação, caímos na indiferença, na indiferença covarde de assumir e aceitar o novo. Nega-se o passado feliz através da indiferença, nega-se a si mesmo, pois dessa maneira não precisamos admitir que não somos mais os mesmos, perde-se a oportunidade do amor puro e incondicional que move a amizade.

Se você publicar um livro, me avisa que eu compro!!!!

joseadal disse...

Caro "pássaro madrugador", serviçal desta enorme gleba que Deus nos deu, achei teu blog muito lindo e acabei tomando emprestado uma foto para colocar no meu blog. Aparece lá pra ver.
http://joseadal-opinioesalheias.blogspot.com/
Continue semeando por dever e prazer.
joseadal

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