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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Fazer a Vida, Fazer Sentido

"Não tente me entender, só me abrace."

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ao Irmão

Em um comentário escrito por mim num blog, alguns anos atrás, revelei que minha infância e um pedaço de minha adolescência aconteceram ao lado de dois irmãos. Um por parte de pai, e outro por parte de mãe.

Havia dito que a Vida nos proporciona situações dessa natureza para ensaiarmos um olhar fraterno mais amplo a todo ser humano...

Falei sobre os atritos com meus irmãos e que estes ocorreram por outros motivos e não este deles serem, do ponto de vista sangüíneo, "meio-irmãos".

Concluí, falando que, esta expressão "meio-irmão", não fazia sentido para mim, porque o amor não é algo que possa existir pela metade...


* * *

Um desses meus irmãos, hoje, mora longe. Tornou-se um empresário muito bem sucedido, casado com uma promotora, e já me deu dois lindos sobrinhos. Tenho pouco contato com ele.

O outro irmão, com o qual convivo, é o mais velho. Uma pessoa que enfrenta, no presente momento, uma fase muito difícil. A nossa relação também está numa situação bastante delicada e atribuo isso, em grande parte, ao forte temperamento dele e a equívocos na forma como a nossa mãe nos educou (os caçulas acabam tendo sempre mais atenção...).

A luta por compreensão tem sido grande. A suscetibilidade dele faz com que me sinta como alguém que caminha por um campo minado. Não raro, a mágoa nubla o afeto e o reverso dessa moeda cobra inúmeras vezes o perdão, ainda que tardio, em favor de nossa própria paz interior.

Apesar dos pesares, é costume passarmos ótimos momentos juntos. Gostamos muito de brincar, de "tirar onda" com tudo, e temos sim, algumas visões de vida em comum. Eu procuro sempre dar o máximo de espaço possível, para que se descubra e liberte-se dos medos que traz consigo.

A ele, dedico esta música:




Eu o amo, mas ele não precisa saber disso - não assim, verbalmente. O que ele precisa é que eu faça acontecer, a existência desse amor, em nossas vidas, sempre...

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No vídeo: The Hollies interpretam "He Ain't Heavy, He's My Brother", de Bobby Scott e Bob Russell.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Papel Manchado



Choro calado,
Escorre nas letras,
O branco borrado,
Em negro nanquim.

Ponta pequena,
Com lágrimas negras,
Será longa pena,
Riscando, sem fim...


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Grito Mudo


Desde que me entendo por gente, neste nosso mundo hipócrita e vaidoso, o solidário, o bom, o justo e tantas outras virtudes são continuamente condenadas ao ostracismo. Além disso, a busca pela liberdade - a todo custo - fez de nós escravos dos nossos próprios desejos desenfreados.

Nunca esteve tão à margem dos processos de convivência social, a procura pelo bem e pelo equilíbrio. O normal é cultivar a loucura na inconseqüência, arriscando a vida no vício e buscando a banalização das sensações e dos sentimentos por puro prazer egoísta. Freqüentemente, a desculpa é a de que procuramos por uma "solução" para existência humana. Todavia, não nos damos conta ainda de que esta mesma "solução" ocorre pelo caminho mais fácil e covarde...

Lamento sim, essa nossa decadência moral fruto de uma tremenda ignorância. Embora acredite que esta mesma ignorância seja uma etapa necessária, rumo a condições de maior harmonia intra e interpessoal, fico aqui com meus botões, pensando: até quando o chafurdar nessa lama de iniqüidades? Até quando há de permanecer neste mundo a louca e indevida satisfação que se demora em nós, por ainda nos comprazermos num erro, por acreditarmos que essa decadência veio para ficar?

O imaginário popular parece contradizer a minha crença na impermanência da ignorância, no seu ditado "pau que nasce torto, nunca se endireita". É isso mesmo e pronto? Acabou? Vamos ficar apenas com a mobilidade social alheios à mobilidade moral? Para quê educação então?

O fato é que nos acomodamos à cegueira, ao tatear no escuro, aos tropeços e quedas... Parece que desenvolvemos um cinismo dormente perante o sofrimento que provocamos em nossas vidas e na dos outros. Cheios de remendos, damos com os ombros conformados (conformistas) e prosseguimos em verdadeira alienação sobre como estamos e a respeito de tudo que nos cerca.

Vale lembrar que a verdadeira revolução humana se dá de dentro para fora, no autodescobrimento. Essa revolução quase sempre passa desapercebida. Ela é silenciosa e ninguém a vê, por isso mostra ao orgulhoso a sua pequenez; é inalienável e perseverante, por isso desperta o preguiçoso do sono da inércia; é profunda e marcante, por isso o essencial e a responsabilidade tomam o lugar do frívolo; é lenta e gradual, por isso cura o impaciente...

Entretanto, quantos têm a coragem de lidar com idéias e hábitos "tortos", condicionados, tão bem acalentados e sedimentados no decorrer de anos e anos? Quantos têm vontade de reconhecer e aceitar as falhas trazidas no coração para depois diluí-las no auxílio ao próximo?

Podem ser mudados os governos, modificadas as instituições, criados novos ministérios e secretarias, erguidas escolas, universidades, templos e igrejas, e locais outros de excelência cultural, mas, sem reforma íntima, não haverá mudança real.

Sem cocheiros bons, sem homens de bem na condução das vidas, sem que nos conduzamos bem, as carruagens tenderão a novos tombos fatais: rodas e eixos quebrados, cavalos indisciplinados puxando em várias direções, atropelamentos...

Sem a busca pelo bem e pelo justo, que deve estar arraigada às nossas ações do cotidiano, por menores que elas sejam, toda a educação será uma farsa, ou apenas uma promessa vazia, e contiunaremos sendo (sabe-se lá até quando!) mandatários, presos a pesados grilhões, daquilo que trazemos de pior dentro de nós mesmos.

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"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...

É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos..."

(Fernando Pessoa)

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Na imagem: O Grito (1893), by Edvard Munch.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Pedagogo

Na sala de aula, em frente ao quadro negro, despertou com um gosto apurado de massapê na língua. Em sua boca, havia sementes que mastigara, escarificando-as, enquanto contemplava o horizonte além da janela.

Lançou os grãos, com paixão desvelada, na vastidão do campo que se estendia a sua frente. Eram verbos que se debulhavam, pouco a pouco, revelando o significado dos arcanos.

Aqui e ali se deparava com gente de alma barrenta, aparentando infertilidade no pensamento, desinteresse no coração. Persistia, porém, estóico, e não fugia ao compromisso assumido. Mãos calejadas na charrua, lavrava o solo da insipiência.

Regava com suor, saliva e lágrimas escondidas aquilo que semeava nos rostos de terra que se fazia árida pela ignorância malcriada.

Ao término da aula, sentia-se alegre e aliviado, quando via germinar, aos montes, as sementes arduamente plantadas. Os brotos verdes-claros surgiam rapidamente. Suas raízes já eram profundas e ganhavam o âmago dos aprendizes, trazendo revolução.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Plenitude



O mar é minha salvação porque eu sou um pescador.

Minha rede busca aquilo que outras redes não podem arrastar, por isso, sempre a recolho vazia.

Muitos, na vila, falam: "Estás louco? Como podes, todos os dias nada pescar em oceano de tanta fartura? Não sabes pescar!".

Eles trazem tanto em suas redes e nunca estão satisfeitos. Não sabem que, nada trazendo, tudo há de preencher as suas redes...

E digo-lhes mais: se eles, nada fossem, todo o mar, neles, caberia e teriam todos os peixes do mundo!


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Você consegue?


Porque nesta nossa paixão, com tantas dúvidas e palavras dúbias, jogadas na cara um do outro, nunca soube dizer em que parte de mim eu termino e você começa...

Do Casamento


Certa feita, voltando da faculdade com uma colega de classe, acabamos tocando no assunto "casamento". Conversa vem, conversa vai, ela pergunta:

- Você tem vontade de casar?

- Não. - respondi sem pestanejar.

Depois da resposta, senti-me como alguém que jogara um palito de fósforo aceso em tonel de gasolina: a menina se inflamou e despejou críticas a torto e a direito, a respeito desse meu posicionamento.

Ela ficou tão indignada, que nem me deu atenção, quando lhe falei que o fato de alguém não desejar se casar, não quer dizer sempre que a pessoa seja um "irresponsável sentimental"; que não mereça confiança alguma nos assuntos do coração; que não queira compromisso... Mesmo assim, apenas restou para mim o meu silêncio, num lamento íntimo, pois a menina não parava de falar, querendo que eu me convertesse num "bom moço"!

No dia seguinte, ao término da última aula, ela saiu na frente para não ir até a parada de ônibus comigo e, a partir de então, passamos a conversar esporadicamente. Sobre casamento, nunca mais. Isso ocorreu há uns três anos. De lá para cá, outras pessoas, também têm manifestado um certo repúdio a essa minha visão, de forma mais ou menos agressiva que essa minha "amiga".

Sinceramente, entendo e aceito quem encara a questão do casamento dentro da visão tradicional. Respeito, claro, quem admira e defende toda a ritualística que o envolve, seja no âmbito religioso ou jurídico. O amparo legal do nosso Direito aos cônjuges é algo demasiado importante frente à questão dos bens, da herança, do cuidado aos filhos. O casamento "de véu e grinalda" ante um altar, para os religiosos, pode ser um momento sublime, no qual se materializam os laços espirituais, tidos neste momento sagrado como indissolúveis e transcendentais...

Mas, eu me pergunto, existindo o amor, realmente, faz-se necessário a vivência de toda essa tradição? O amor por si só não seria a Lei que haveria de reger a conduta dos que decidiram caminhar lado a lado nesta vida?

A tradição pode suprir, quando muito, as necessidades do corpo; as do coração, jamais. Pode dar um certo ar de importância, de seriedade, a uma relação de conveniência, pela qual muitos na sociedade demonstrarão respeito, imaginando ser um matrimônio exemplar, quando, na verdade, os supostos casados não passam de dois indivíduos que se suportam amargamente sob um mesmo teto. Chamam o lugar onde moram de tudo, menos de "nosso lar". Vivem, porém não convivem.

Não raro, a devoção pela convenção esmerada esconde um "vácuo emocional" no coração dos nubentes...

* * *

Por falar no assunto "lar", gostaria de fazer um rápido adendo à esta discussão.

O lar, para mim, nasce dentro de um conceito bem mais subjetivo. Considero-o a "alma" da casa. Se as quatro paredes de uma casa são feitas de tijolos, as paredes de um lar são feitas com os melhores sentimentos. Encaro-o como o resultado de uma relação afetiva e emocional construtiva, capaz de ultrapassar as quatro paredes de uma casa. Dessa forma, os que se amam podem até morar sob tetos diferentes, distantes um do outro e, mesmo assim, ainda estarão unidos num mesmo lar.

* * *

Outro ponto que confesso, e que muitos também não aceitam, é pensar numa relação onde os parceiros, tendo cada um o seu cantinho para morar, de tempos em tempos, conviveriam sob o mesmo teto. Isso resolve problemas de privacidade, evita o tédio e a rotina, apimenta a relação pelo despertar da saudade, etc...

É evidente que havendo filhos, tudo ganha contornos distintos, sem contar que casais ciumentos podem sofrer muito nesse tipo de convivência. Importa, nessas horas, muita conversa, responsabilidade e maturidade.

Esse assunto é muito vasto e o que digo aqui é apenas en passant.

O que eu almejo, de fato, numa relação a dois, é espaço para exercer o amar - e isso já me basta -, porque reconheço o Amor como a minha Lei, o meu fanal, doa a quem doer...

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Na imagem: Le prêtre marié, 1961 - by René Magritte.

sábado, 13 de novembro de 2010

Ascensão


À noite, o matagal era a imagem do silêncio e a Lua Cheia, aos poucos, ia assumindo o seu zênite.

Através de algumas brechas na folhagem densa das copas do arvoredo, os feixes argentinos do luar espremiam-se para conseguirem tocar o chão da floresta. O surgimento deles, naquele recanto escuro, era o sinal pelo qual o besouro Zé Esmeraldino tanto ansiava...

De dentro dos arbustos, o pequenino inseto, com cautela, movimentou suas antenas à procura de algo no ar que lhe indicasse a presença de algum sapo, tarântula ou centopéia. Nada percebendo, aprumou os élitros e disparou em direção a árvore mais próxima. Iniciava assim a maior aventura de sua vida!

Agarrou-se como pôde em imensas raízes tabulares que rasgavam o terreno à maneira de intermináveis estradas acidentadas. Alcançando o lenhoso caule, percorreu com dificuldade os sulcos profundos e as calosidades na casca grossa da velha planta como quem vence abismos e canyons.

Por pouco não se perdeu na copagem, em meio ao labirinto de ramos e folhas, conseguindo sair dele, graças a ajuda de lagartas pacientes. Também lançou mão de alguns truques que levava consigo para escapar das longas fileiras de formigas nervosas.

Esmeraldino era muito sabido. Andou na ponta dos pés perto de vespeiros e uma vez permaneceu imóvel, ciente da cor que o revestia, para confundir-se com o ambiente no intuito de ficar virtualmente invisível aos olhos dum camaleão faminto que por ele passava.

Numa ocasião, arriscou-se em vôos breves de um galho a outro, desafiando o equilíbrio com ousadia, no embalo de frias correntes de ar traiçoeiras. Em outro momento, quase tombou inebriado pelo perfume de belas orquídeas e pelo doce apelo da seiva viscosa, oferecida por percevejos libertinos.

Insistia, porém, na escalada, sem se dar conta de quantos escorregões sofreu, por descuido, em largos limbos de grandes folhas...

Atingindo a cimeira, finalmente, a intrépida criaturinha contemplou perplexa o faiscar dos astros na abóbada celeste. Não cabia em si de contentamento! A visão era bem mais bela que o imaginado!

Quando a temperatura baixou, a umidade se condensou magicamente sobre o folhame, formando o sereno da madrugada. Os milhões de gotículas passaram a refletir, cada uma, a imagem do firmamento, trazendo o céu infinitas vezes à Terra!

Zé Esmeraldino escolheu uma gota de tamanho maior, dela se aproximando. Com os olhos arregalados, viu a Lua espelhada na superfície líquida e apalpou-a carinhosamente com suas antenas. Fascinado, quis trazer o universo inteiro para si...

Sorveu o orvalho.

Em assombro, sentiu que saía dalí voando numa velocidade maior que a da luz... Percorreu galáxias distantes, conhecendo nebulosas, quasares, supernovas, buracos negros, cometas e muitos corpos celestes e... muitas outras dimensões...

O valente besourinho verde, desde então, nunca mais fora visto.

Uma onça pintada vive espalhando um boato pela vizinhança, dizendo que Esmeraldino brilha agora, no céu, como uma constelação. Ela jura, com as quatro patas juntas, que viu o dia em que isso aconteceu e ainda aponta para o local onde o pequeno herói estaria imortalizado.

Todavia, um macaco capuchinho traz uma outra versão da história: ele ouviu a passarinhada cantar, em plena alvorada, que Zé nunca mais fora visto, porque nunca mais fora o mesmo...


sábado, 6 de novembro de 2010

Mangue City


O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
Vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
Nem importa se são boas

E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

A cidade se encontra
Prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares

E no meio da esperteza
Internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus

Num dia de sol, recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Só, o meu querer


Eu só queria beijar o teu ventre para arrancar-te uma gargalhada gostosa...

Eu só queria abraçar-te sob um temporal vespertino para ver tuas lágrimas de saudade saciada brilharem mais que os pingos da chuva...

Eu só queria espalhar, na tua companhia, em cima da cama, nossos livros de poesia, de filosofia, e abstrair de cada página os versos, as palavras, de nossa revelação...

Eu só queria conversar contigo, à beira-mar, sem sentir o dia virar noite, até que enxergássemos as nossas almas apenas em nossas vozes...

Eu só queria prender, entre meus dedos, os teus cabelos desarrumados pela brisa, para acariciar o teu pescoço desnudado...

Eu só queria comer, uma pizza bem grande contigo, sem culpa - nós dois, sentados no chão, feito crianças, lambuzados...!!!

Eu só queria ficar olhando para teus olhos, teus lábios, até o teu rosto na timidez corar com um sorriso recatado...

Eu só queria fazer-te sentir tesão, quando pegasse na tua mão, sem que esperasses por isso...

Eu só queria poder ser teu cúmplice em tudo e em mais alguma coisa...

Eu só queria poder dizer-te mais sobre esse tudo que não cabe aqui...

(Mas fiquei só, nesse querer, pelo teu não me querer...)


domingo, 10 de outubro de 2010

Partida


A ingenuidade arrumou as malas e saiu de casa.

Saiu de mim...

Na sua passagem, pelo quarto de minhas recordações, havia deixado um vinco em meus lençóis - que desfiz com as duas mãos.

A desilusão tem perfume de jasmim.

Tomou o aposento por inteiro, trazida nos braços duma doce aragem que me assanhou os cabelos.

A janela estava escancarada.

Sempre esteve.

Sempre desejei que, um dia, a ingenuidade saísse por aí.

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Na imagem: tela de René Magritte.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Que Queremos Realmente?


Menina, não me relegue ao impossível.

É melhor render-se ao medo em vez de ao amor? Durante quanto tempo, verbos nossos se renderam medrosos a sujeitos ocultos?

Sabemos que de nada adianta corrermos loucos e egoístas para os braços da solidão, peitos abertos, sem corações, enquanto estes permanecerem partidos, sangrando e batendo nas mãos de quem amamos.

Há, entre nós, uma certeza ainda não desatada e suplicante: que libertemos a paixão e gritemos um ao outro nossos nomes!

Aquilo que tu sentes por mim não merece o duro chão frio sob nossos pés, a escuridão desditosa, o esquecimento vetusto.

Todavia, pergunto-me por quanto tempo iremos sobreviver a tudo isto de evitarmos sentimentos; de fingirmos que não sentimos; de proibirmos em nós o que queremos tanto sentir?

O que me resta, por tua culpa, é trair-te com a sorte incerta e com esta fazer amor - até o momento em que tua boca revele o meu nome...

sábado, 2 de outubro de 2010

Lágrimas & Imortalidade



Músicos, quando choram, vêem suas lágrimas escorrerem pelas faces de seus instrumentos.

É aí, então, que cada lágrima acaba por ferir uma corda e todo sentimento, na forma de canções com belas melodias, emerge do âmago de suas almas, tornando os artistas inesquecíveis, imortais.

Enquanto isso, no Círculo Polar Ártico...



Assim como a humildade, a prudência é uma virtude muito apreciada pelos povos do extremo oriente.

A imagem de uma velha raposa atravessando cautelosamente um lago congelado é proverbial. Com os ouvidos atentos, o animal responde a qualquer estalo de gelo partindo-se, ao mesmo tempo que procura os pontos mais seguros para trilhar.

Por outro lado, a sabedoria oriental também nos diz que uma raposa jovem e imatura representa o agir imprudente de alguém. Ao lançar-se de modo audacioso na travessia, ela estaria sob o sério risco de cair n'água gelada, a poucos metros da margem oposta, ameaçada de perder todo o esforço empreendido.


* * *

Escrevo estas linhas, no intuito de deixar vívido, na minha memória, o cultivo da prudência nesses dias apressados, repletos de intranqüilidade, em que vivemos. Prudência nos atos, nas palavras e, principalmente, nos pensamentos (que comumente criam a escravidão ou a liberdade da alma).

Quinta-feira passada, vivenciei no trabalho uma situação que me deixou com "cara e focinho de jovem raposa". O desafio que enfrentei foi algo difícil e longo. Não cabe descrevê-lo neste espaço, seria enfadonho. Apenas digo que passei por uma verdadeira prova de resistência (na paciência)! Tudo transcorria bem, até que nos últimos instantes, "pisei" onde não devia e tomei aquele banho d'água gelada...

Não houve danos materiais, tão pouco terceiros foram prejudicados. Existiu sim um vacilo moral de minha parte que, de certa maneira, "maculou" o resultado da atividade realizada por mim. Tirou-me a graça da boa ação.


* * *

Olhando, agora, para a foto acima, curioso como a pelagem branca do animal não me evoca qualquer idéia de paz ou pureza espiritual. A leitura que faço é aquela na qual essa cor nos remete a um dos emblemas da ignorância: à maneira de algumas folhas de papel em branco, trazendo apenas a promessa de tudo nelas ser escrito...

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Na imagem: uma raposa-do-ártico (Alopex lagopus), também chamada de "raposa polar".


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sultans of Swing




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No vídeo: Mark Knopfler, a frente do "Dire Straits", numa magistral interpretação de uma das obras máximas do rock. Show realizado em Sydney (1986).

sábado, 4 de setembro de 2010

Toque de Midas


Alcançaram-me as últimas horas da claridade vespertina. Nesse momento, tudo o que realmente me pertence converge para uma única direção...

Surpreso, avistei, ao atravessar uma das pontes sobre a foz do Capibaribe, uma súplica do Belo ao Amor contra a frieza dos seres que se julgam humanos: o Sol em seu ocaso, ainda soberano, desmanchando a palidez tristonha da cidade.

Sua luminosidade, refletida pela superfície d'água, cintilando no movimento contínuo das marolas, inundava o interior do coletivo em que eu estava, com um dourado intenso, ofuscante.

O disco solar fazia sua estampa em minha retina, enquanto seus raios espargiam em todas as direções possíveis - e também inimagináveis.

De olhos entreabertos, enxerguei com certa dificuldade admirável transmutação ocorrer.

Como um pintor de inigualável habilidade, o astro rei derramava, gentilmente, sua palheta de cores brilhantes na tela fosca de minh'alma, e por meio de precisas e suaves pinceladas, revelava-me o ouro sideral mais puro e maciço que trazia comigo...

Levava para casa, um sorriso de luz num rosto pintado de Sol. Autorretrato de uma estrela, nunca visto por alguém. 

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Na imagem: "The Pleasure Principle (Portrait of Edward James)", 1937. By René Magritte.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Devaneios


Diariamente, a caminho do trabalho, dou-me conta, entediado, de quão célere passa a vida do lado de fora e como toda essa pressa, recheada de monotonia, nunca me interessou.

O caos da capital se acostumou, de forma quase sádica, a torturar minha paciência no trânsito barulhento. Duas horas de viagem, entrecortada por engarrafamentos, faz qualquer alma urbana desejar com veemência uma carta de alforria.

Mas, para minha felicidade, sem burocracia de qualquer espécie, sempre obtive essa justa documentação. Basta-me apenas, dentro dos coletivos que tomo, a rendição pacífica aos meus devaneios.

Essa conquistada liberdade, ainda que provisória, leva-me de um lado a outro da realidade. Portas são abertas e fechadas, vagarosamente, dentro de mim; janelas imaginárias revelam, de maneira incomum, o que há ao meu redor. Pululam em minha tela mental, sem impedimentos, lembranças, emoções soltas e pensamentos, muitas vezes, desconexos, numa tranqüila produção aleatória do espírito.

Nesse suave agito de asas surreais, acabo pairando acima das aflições imediatistas e abarco, oportunamente, de relance, boa parte do meu mundo íntimo num único olhar...

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Na imagem: "La grande famille" (1963), by René Magritte.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pra Ser Sincero

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Tema De Uma Cor Solitária



Dia de chuva. Dia cinzento.

Dia em que o céu fica igual ao pavimento das avenidas; ao cimento dos prédios e dos monumentos; igual às calçadas e seus postes; igual à fumaça dos motores.

Tudo desaparecia pouco a pouco no avançar das horas, numa mistura heterogênea das nuanças de uma única cor.

Não havia mais quem discernisse em que ponto terminava a terra e começava o céu...

Perguntei-me se andávamos de cabeça para baixo pela cidade, com os pés em nuvens de asfalto ou se voávamos simplesmente por um concreto celestial. Ora tudo parecia certo, definido em seus devidos lugares. Ora, num piscar de olhos, tudo conseguia ser idêntico, sem linhas, nem fronteiras.

E o Sol modelava esse dégradé que começava por entre as nuvens e estendia-se até um lugar infinito, desconhecido, aqui, bem dentro de mim...

O mesmo Sol que nos fazia sumir com a fuga de suas luzes no fim do dia.

Um dia cinzento de chuva, no qual tudo cabia e perdia-se numa única cor.

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Na imagem: "Chuva" - photo by Gabriel Fernandes.

Atribuição 2.0 Genérica
(CC BY-SA 2.0)