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domingo, 15 de maio de 2011

Não-Ação

No início da noite, Satoru e seu discípulo meditavam num aposento livre de imagens. Próxima aos dois, uma vela iluminava o local, modestamente, em frágil pires de porcelana.

A certa altura do exercício, o aluno, algo assustado, falou:

__Mestre... as nossas sombras... projetadas nas paredes deste recinto... são tão grandes...

Satoru notou que a respiração do aprendiz fazia com que a pequenina chama trepidasse quase ao ponto de apagá-la. Nesse mesmo instante,
interrompeu as palavras do pupilo e, finalizando a meditação, disse:

__Vamo-nos daqui, agora, e deixemos o local entregue à luz dessa vela para que, em paz, cumpra a sua tarefa de iluminar, sem a nossa inconveniente presença...

As sombras desapareceram.


domingo, 8 de maio de 2011

Destaque

Leiam excelente matéria postada no Depósito do Calvin em que Bill Watterson revela o porquê do não licenciamento de suas criações "Calvin & Haroldo".

(Dá-lhe, Bill! É assim que se faz!)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Eu te amo, em silêncio...



"Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som..."

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No vídeo: Lulu Santos canta a música "Certas Coisas"- Acústico MTv.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pessoa


Na Véspera de não Partir Nunca

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranqüilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!

________________________

Álvaro de Campos, in "Poemas"


Na Imagem: retrato de Fernando Pessoa - MS Paint -, by Gaijin.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Resposta a um Amigo


Costumo trocar correspondências via e-mail com um grande amigo, analisando e emitindo opiniões acerca de temas variados. Hoje, respondi mais uma dessas "cartas", na qual ele quis saber as minhas impressões a respeito da seguinte sentença de Eckhart Tolle:

"Nós somos o céu. As nuvens são as coisas que acontecem, tudo o que vem e vai".


* * *

O citado pensamento tolliano me remete à lembrança da porção imutável (centelha divina) em nosssa intimidade.

Durante uma viagem de ônibus, em que meditava sobre esse assunto, clareou-me a cabeça um insight:

A água muda de fase, invadindo os subsolos ou buscando os céus. Preenche formas variadas que vão do relevo terrestre às células eucariotas e procariotas. Suporta paciente a poluição, não grita diante das pressões abissais e nem se assusta nas quedas das cachoeiras. Serve humilde, movendo máquinas e atendendo, incansável, o consumo doméstico das populações. Alberga em seu seio, com generosidade materna, as mais variadas espécies de seres. Pode ser vista como uma singela gota de orvalho ou como um imenso manancial. Ora traz o belo arco-íris, ora o forte estrondo de um trovão... Arrebenta diques com força irresistível, sendo que, na lágrima, escorre no rosto com delicadeza...

A água faz tudo isso sem deixar de ser o que é!

Da mesma forma que esse "líquido sagrado", vejo o céu evocado por Tolle, como sendo a representação do que somos, na essência, mas que ainda não integramos de forma plena ao nosso consciente...

O ceú pode estar límpido ou nublado, mas nunca deixará de ser o que é!

Diante dessa realidade, se nos sintonizarmos com a essência, a Verdade, aquilo que é imutável através dos séculos, sempre teremos condições de superarmos, com serenidade e paciência, as adversidades, por compreendermos o caráter transitório das coisas e situações (nuvens).

Elevando-nos ao "céu interior", dilata-se o discernimento e conseguimos fazer uma distinção mais nítida entre o mutável e o permanente.

Mário Quintana, poeta, tradutor e jornalista brasileiro, de certo modo, já havia se inteirado dessa realidade quando, em célebre texto, intitulado "Poeminha do Contra", disse:


"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"

E para onde vai esse "eu-passarinho", ao voar, senão para o céu que traz consigo, em seu mundo interior?!

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Na imagem: belíssima foto realizada por Diego Cavichiolli Carbone

Atribuição 2.0 Genérica (CC BY 2.0)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os Sete Odores do Arco-Íris Urbano

O ser humano exala, intensamente, sete odores:

Papel-moeda

Cosméticos

Sexo

Cachaça

Fumaça de cigarro

Óleo de automóvel

Gordura de lanchonete

A Origem da Morte*

Fobos e Deimos subiram até o cume de uma grande montanha e, evocando Bóreas, o devorador, pediram que este soprasse à humanidade a maior de todas as mentiras:

- Tânatos existe!

A frase maldita se dispersou com o vento traiçoeiro, e todos os cantos do mundo tiveram seu conhecimento. A partir de então, o egoísmo e um de seus filhos, o apego, encontraram guarida na alma de cada criatura humana.

Ícelo teve liberdade de agir ao meio dia, e os pesadelos surgiram na vigília. Foram vistas sombras nas calçadas das cidades e sobre as plantações.

Cidadão algum estaria mais em segurança, porque todos quiseram tudo apenas para si - vergastados dia e noite pela cobiça e pela inveja - numa busca insana por proteção...


__________________

*Da Série "Reescrevendo Mitos" - by Gaijin.


domingo, 10 de abril de 2011

Água Doce


Espiava no igarapé aquele pedaço da mata virgem em forma de mulher. Uma morena, tão nua, toda entregue ao Sol, deitada em cima de imensa vitória-régia. O calor havia repousado as mãos no seu corpo suado que brilhava de satisfação. Os longos cabelos negros esparramados sobre a água eram alisados por suave correnteza que levava a jovem, lentamente, para longe de mim...

O curumim me puxou pela camisa.

__Num vai lá atrás da minha irmã, não?!

__Peraí... Tô pensando no que eu vou fazer... __respondi.

__Pensa não, vai lá... Senão, ela some...

__Você sabe dos meus medos...

__Então, espera ela voltar.

__Espero não. Tem que ser agora!

__Olha, ela tá indo embora... Vai perder minha irmã pro rio! __brincou o pequeno.

Vim de longe, para estas terras abençoadas pelo Cruzeiro do Sul graças a uma incrível geração que velejou por imensos mares nunca antes navegados, numa inconsequente, ousada e bem sucedida aventura. Entretanto, cá estou, sem conseguir dar algumas simples braçadas em pouca distância... O menino parece uma piabinha em ribeirões... Inveja danada desse indiozinho que vive tomando banho e mergulha dando cambalhotas...

Eu sei nadar, mas acontece que o ânimo de cair n'água trouxe alguns medos clandestinos nos porões de minha nau. Realmente, o difícil era entender o que se passava em meu coração: estavam desaguando, às margens dos riachos por onde andava, amores e temores parecidos com aqueles que eu sentia quando em alto-mar...

Desde que aqui cheguei, causam-me calafrios, as águas doces e escuras dos rios à sombra das frondosas árvores. Quase sempre, quedo por alguns minutos, imaginando que criatura poderia encontrar, escondida no lodo do fundo ou sob os milhares de aguapés... Quando consigo enxergar algo além da superfície, não raro, vejo apenas um emaranhado de raízes e hastes submersas, de coloração castanha escura e esverdeada, cobrindo as profundezas...

Todavia, algo me atrai nesses riachos, porque, apesar de tudo __é quase irresistível__ há um desejo de sumir sob as águas, em um nado oculto, rumo ao desconhecido...

A índia percebeu a nossa movimentação por detrás da moita e gritou desconfiada. O curumim, aos pulos e berros, pegou-me pela mão e mostrou-me para a irmã que abriu um lindo sorriso. Fiquei sem jeito... Ela acenou, chamando. Meu coração disparou. Chamei-a de volta. Ela fez um gesto de negação com a cabeça, apontou para mim e depois encostou a palma da mão na vitória-régia.

__Você fica! Eu vou! __falei, pegando no braço do indiozinho que, saltitante, já ia entrando n'água.

__Chegou a coragem?! __alegrou-se o pequeno.

__Não... Ainda, não... __suspirei, caindo em mim mesmo.

A correnteza prosseguia e o chamado da índia já parecia um adeus.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A culpa é do luar...



...que entrou em meu quarto e me fez ir até a janela para olhar o céu desta noite...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Litígios

Não é ganhar ou perder de alguém. A questão é até que ponto vão a mágoa, o orgulho ou os medos do ser humano...

sábado, 12 de março de 2011

No apagar das luzes


Ao mergulhar de cabeça
Nas madrugadas mais escuras
Sempre faço de mim
Um pedaço da noite
Para compreender as estrelas

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Photo by Leonid Tishkov

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bambuzal


No caminho
Chuva fria
Vendaval
Bambuzal
Açoitado
Reverente
Apontando
A direção
Vejo a trilha
Vou trilhando
Quase caio
De joelhos
Levo a mão
À cabeça
Não segura
Meu chapéu
Sobre mim
Desaba o céu!
Lamaçal
Finco os pés
Folhas caem
Passageiro
Suportando
Sobrevivo
Por inteiro
Mundo inteiro
Tudo acaba
Tudo volta
À retidão
Sigo em frente
Mais ligeiro
Mais humilde
Bambuzal
Que se curva
Não se quebra
De tão forte
Espanta a morte
Quando sopra
Vendaval

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Todos os Dias

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Estados de Consciência

Não acredito em céu, muito menos em inferno, exceto dentro da compreensão do seguinte texto (não é de minha autoria):


Parábola do Céu e Inferno


Um Samurai grande e forte, de índole violenta, foi procurar um pequenino monge.

- Monge - disse, numa voz acostumada à obediência imediata - Ensina-me sobre o céu e o inferno!

O monge miudinho olhou para o terrível guerreiro e respondeu com o mais absoluto desprezo:

- Ensinar a você sobre o céu e o inferno? Eu não poderia ensinar-lhe coisa alguma. Você está imundo. Seu fedor é insuportável. A lâmina da sua espada está enferrujada. Você é uma vergonha, uma humilhação para a classe dos samurais. Suma da minha vista! Não consigo suportar sua presença execrável.

O samurai enfureceu-se. Estremecendo de ódio, o sangue subiu-lhe ao rosto e ele mal conseguiu balbuciar palavra alguma de tanta raiva. Empunhou a espada, ergueu-a sobre a cabeça e se preparou para decapitar o monge.

- Isto é o inferno - disse o monge mansamente.

O samurai ficou pasmo. A compaixão e absoluta dedicação daquele pequeno homem, oferecendo a própria vida para ensinar-lhe sobre o inferno! O guerreiro foi lentamente abaixando a espada, cheio de gratidão, subitamente pacificado.

- Isso é o céu - completou o monge, com serenidade.

__________________

Ou seja, céu e inferno não tem a ver com "geografia espiritual"... Tem sim, com estado de consciência.

E o que eu disser sobre isso, em meus textos, não passará de símbolos a descreverem meus estados de espírito...


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Egotrips


Deixar a "criança interna" vir à tona é sinal de maturidade. "Ser criança" não é ser um bobo, um inconseqüente. Muita gente pensa que ser sisudo é condição para se tornar adulto...

Por deixarem essa criança presa é que existe tanta gente com uma qualidade de vida tão aquém da ideal, prejudicando, inclusive, muitos do seu convívio.

Passei uma boa parte da vida com uma visão muito séria de mim mesmo, das coisas, pessoas e situações. Era um jovem "metido a velho". Este "homem antigo" ainda pode ser visto em várias passagens dos textos de meu blog.

Talvez, esse ancião nunca pare de me assombrar. Talvez...

* * *

Por mais que eu seja educado, gentil, sem excessos ou afetações, a maioria das pessoas que conheço, ainda fica ressabiada em me conhecer. Até hoje, não sei a razão disso. Cismam comigo do nada. Parece que todo mundo se torna tímido perto de mim; sem jeito... Aproximam-se com o freio de mão puxado...

Antes que alguém diga que isso é "neura" ou "invenção de minha cabeça", sei que existe algo diferente no ar, porque, quando olho ao redor, vejo que isso não acontece com os outros... Sempre tive que improvisar para deixar as pessoas mais à vontade.

Preconceitos, às vezes, são engraçados. Ora nos fazem sentir um Frank Sinatra, ora um macaco dentro de uma jaula de zoológico...

Mais tarde, vêem que não sou um bicho de sete cabeças; que tenho boca, mas não sou de morder; que minha vida é um livro aberto... Terminam dizendo que sou muito legal e coisa e tal...

* * *

Por mais sério que um dia eu tenha sido, paradoxalmente, nunca gostei de ambientes cheios de formalidade. Sempre flertei com a espontaneidade que gera aqueles momentos cheios de alegria serena, na qual ficamos distantes de qualquer ansiedade, totalmente à vontade perante o outro; de alma despida.

* * *

Se por um lado, gosto de espontaneidade, de alegria e de ser criança, por outro, evito as festividades que aglomeram as multidões frenéticas. Prefiro o silêncio das praias e ruas desertas quebrado apenas pelo sussurro do vento, pelo canto dos pássaros e pela voz da pessoa amada... Tenho verdadeira paixão pela cumplicidade e pela intimidade (no amor, dupla mais perfeita, não há). Creio, piamente, que estas duas últimas só podem ser satisfeitas, de forma plena, numa "solidão a dois"...


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Urbana Legio Omnia Vincit

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Solilóquio

Solidão
É quando se lida,
Sozinho,
Com a solidariedade...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Indiferença

A indiferença é um grito mudo dos mais altos e desumanos que um coração pode ouvir ou proferir.

Ser indiferente é sentenciar-se ao desterro de uma pátria chamada amor.

Perde, dessa forma, o indiferente, a oportunidade de amar duas vezes: o seu próximo e a si mesmo. Perde a oportunidade de ser duas vezes grande...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Assim tem início mais uma madrugada...




...e não sei como, nem quando, vai terminar...

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No vídeo: parte da música "La Villa Strangiato", executada por Geddy Lee (baixo e órgão), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria), integrantes da banda Rush, no Pinkpop Festival (1979).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Reencontro

Novamente, tentei deixar a barba crescida. Ansiava por um reencontro comigo.

Havia perdido a minha identidade para outros que nunca se importaram em saber quem eu era... Borraram meu rosto e, dessa forma, idefinido, fizeram de mim um mero alguém. Um sujeito limitado ao que diziam olhos alheios...

Queria enxergar-me, contudo, nunca fazia isso através dum espelho. Pelo espelho, impossível. O espelho sempre me disse que nunca estarei frente a frente com ele... muito menos comigo...

Por isso, a barba.

Ela, assim, já crescida, espetava-me. Sentia seu toque constante, enquanto os pelos resgatavam um rosto apagado pelo tempo, esquecido por minha pessoa, desvirtuado por muitos.

Se a barba, por um lado, cobria o meu rosto, por outro, trazia de volta um olhar sincero sobre mim. Um olhar trazido pela minha mão que cofiava seus fios como quem procura por algo oculto sob um tênue véu negro... Pude, então, redescobrir marcas, linhas e contornos de uma existência abandonada.

Seguia o caminho apontado, devassando máscaras, porém, antes que me revelasse de todo, o medo, de novo, assaltou minha vontade, furtando-me a iniciativa.

Larguei minha face, como outrora fizera, e corri para o espelho em busca de ajuda. Fui recebido por ele com silenciosa indiferença. Às cegas, saquei a navalha, em agonia. Livrei-me da barba com as mãos tremidas... Cortei o rosto e o sangue vermelho, gotejante, tingiu a pia branca...

Dessa vez, não adiantou. Era tarde demais...

Eu ainda estava ali.